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POR ACASO, desde 2012

 POR ACASO tardes de improviso, 2012, em frente a Fábrica Cultura Coletiva na Rua 3 do Centro de Goiânia/GO

POR ACASO tardes de improviso, 2012, em frente a Fábrica Cultura Coletiva na Rua 3 do Centro de Goiânia/GO

Quando ainda residíamos na antiga Fábrica Cultura Coletiva iniciamos o projeto de jam sessions de música e dança que chamamos de POR ACASO tardes de improviso. Nesse primeiro ano, 2012, realizamos 6 edições na Rua 3 do Centro de Goiânia. Um belo dia ganhamos de presente uma resenha sobre o POR ACASO, hoje relendo esse texto gostaria de responder para Fernanda Marra que insistimos, cravamos os pés e que aqui estamos, em 2014, promovendo os encontros. Segue o texto de 01 de outubro de 2012:

 

 

 

 

Por Acaso

(...) somente na comunidade o homem pode comunicar em embriaguez com o cosmos. É o ameaçador descaminho dos modernos considerar essa experiência como irrelevante, como descartável, e deixá-la por conta do indivíduo como devaneio místico em belas noites estreladas.

Walter Benjamin


Lendo agora sobre a origem do gênero romance intimamente associado ao surgimento do comportamento individualista da sociedade moderna. Desde ontem, quando voltava da calçada da rua 3, onde dançava meio Por Acaso junto com um monte de gente, não paro de pensar no que foi aquilo, no que é aquilo toda vez que acontece. Encontrei um nome: encontro. A leitura sobre o individualismo foi que me sugeriu a palavra pelo contraponto que o evento insinua a tudo que esse comportamento implica. Encontro é coisa rara. Ontem, depois de arriscar movimentos improvisados em plena calçada, ao som que se fazia naquele instante, olhando nos olhos de desconhecidos e devolvendo sorrisos, não consegui parar de pensar no que me impele para o lugar sem receio, sem sequer me preocupar em marcar antes com os amigos. Vou como que Por Acaso a um encontro com o que a música, meu corpo, o outro (que nunca sei muito bem quem é) e a cidade me proporcionam. Talvez, suspeito, seja mais que um encontro: acolhida. A ideia é que seja uma conjunção de artes e que elas aconteçam espontaneamente, vinda de quem se sentir a vontade para o improviso. Impressionante como as regras são tácitas e se estabelecem, quase que silenciosamente, contando apenas com o bom-senso e o convívio. Funciona!

Verdade é que, embora esse nome seja lindo e lírico, serve muito para mim, daqui deste lugar de espectadora, admiradora, frequentadora assídua, que para os organizadores do evento. Para eles não há nada de casuístico. Por Acaso é promovido por coletivos culturais agregados à Fábrica de Cultura (não cito nomes por mero temor de cometer qualquer injustiça deixando de fora os imprescindíveis), trata-se, isso sim, de um enorme trabalho recheado de miudezas que, mesmo uma estrutura aparentemente simples, reivindica atenção e uma gestão operacional pra lá de cansativa. A gente é que sequer imagina quando está lá se divertindo. Acompanho desde o início, vi a turma bater cabeça e depois se acertar com os pequenos detalhes, as questões logísticas. Já faz um tempo que está tudo tão redondinho!

A mim impressiona tudo, desde a iniciativa, a forma como ela acontece fluida e a experiência que particularmente me atravessa. Dizer que Goiânia é uma cidade carente de uma gestão cultural é, no mínimo, um eufemismo. Faz algum tempo que deixamos de ser uma cidade pequena, caminhando para 2 milhões de habitantes e as políticas públicas para a área da cultura... Bem, acho que posso afirmar sem medo de estar sendo leviana, são raras para não falar que inexistem. Não pretendo aqui fazer levante da incompetência e da corrupção administrativas municipais, a cidade está informada acerca dos encaminhamentos dos recursos públicos para a cultura. É mesmo um breve desabafo em meio a esse elogio que faço a todos que viabilizam a ideia do Por Acaso. A proposta que descrevo é uma iniciativa de particulares, de gente interessada em compartilhar, em agregar, em promover a cultura, gente que, sem poder investir recursos financeiros, faz esse encontro acontecer com a boa vontade do trabalho, a dedicação do tempo e sem qualquer finalidade lucrativa. Fazem simplesmente.

A calçada fica cheia, a cidade tem demanda e não são gatos pingados, são pessoas que saem de suas casas em uma tarde de sábado para olhar dentro do olho do outro, ouvir, tocar, dançar junto, encontrar um desconhecido. Acho incrível, acho heroico, um gesto enorme pela cidade pensada socialmente e por todos que nela andam cansados de ser apenas indivíduos. Faço questão de dizer que assim, Por Acaso, estão mexendo com os anseios de um grupo grande, com um modo de ser social, o que pode ter proporções maiores e mais profundas do que suspeitam os envolvidos.

Acredito que essas tardes de sábado transformam nosso espaço, nos permitem ocupá-lo com beleza e promovem o contato entre gente que, mesmo sem se conhecer, gosta de se comunicar na mesma língua. Espero, um desejo que descobri e me permito compartilhar, que o evento nos leve a construir outro aspecto desse perfil social que nos falta: tradição. Somos uma cidade jovem com um potencial criativo que pulula, é verdade, mas fico sempre com a impressão de que carece afinco para cravar os pés e fazer durar o que inventamos de bom. Minha gratidão e meu apoio àqueles que promovem esse encontro tão saudável, é uma realização corajosa, democrática é muito feliz.    

Postado por Fernanda Marra às 01:08

 

Publicado originalmente aqui.

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