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Onde a incoerência não é sofrimento, onde (h)a beleza de somente ser. Vera Mantero em Goiânia

casa corpo

Na semana que se passou tivemos uma visita muito especial na casAcorpO, um encontro com Vera Mantero. Ela estava de passagem por Goiânia, participando do Festival Manga de Vento e sugeriu ao Kleber Damaso, diretor do Festival, que gostaria de ter um contato corporal com artistas da cidade. E Kleber, na disposição de fazer acontecer brechas para além do desenho já traçado do Festival, nos convidou para concretizar este desejo de Vera. Um corre foi feito para convocar artistas para participar desse encontro. Foi numa quarta a noite que a casAcorpO recebeu o Festival Manga de Vento, recebeu artistas da cidade, recebeu Vera Mantero.

Para quem não conhece, o que pode ser bem provável, já que Vera integra um nicho de artistas contemporâneos bem contemporâneos que acabam circulando mais nos espaços restritos da vanguarda da dança contemporânea, naqueles festivais e encontros com mostras e discussões bem cabeludas que, muitas vezes, são desfrutadas e apreendidas, ou seja, entendidas pelos entendidos mesmo. Ou assim parece, mas por aqui não foi bem assim. Voltando, para quem não conhece Vera Mantero é um dos nomes mais importantes da dança contemporânea em Portugal e muito reconhecida nos festivais internacionais da área. Sim, isso mesmo, esse nomão, essa baita artista aqui, conosco, querendo se encontrar corporalmente com a cidade, através de uma aula. E assim, nos encontramos com Vera Mantero.

A aula foi de uma intensidade e, ao mesmo tempo, de uma leveza, que só uma artista com tamanha experiência e estrada poderia proporcionar. Ela convidou os participantes a experimentar seus corpos, ou melhor, a se experimentarem pela via corpo. Fazer aparecer movimentos, narrativas corporais pela visceralidade do mover-se, abdicando do pensar sobre, dos julgamentos, e assim, dos motivos, de razões para tal atividade. Difícil realização, mas que, pela sua cuidadosa condução, pareceu bem possível. Usufruível. A linguagem - por meio das palavras, a escrita e a fala, onde bem nos estruturamos e damos significado e coerência a realidade -, é por ela utilizada como caminho para (poder) ser incoerente, fazer encontrar conexões outras, de sentidos diversos, (ab)surdos para a operação da cultura que nos inserimos.

E assim, ela convidou ao mover-se “livremente”, ou melhor, ao mover-se no difícil exercício de não pensar no que se está fazendo, no difícil exercício de se livrar do julgamento, da razão, da coerência. Depois de um tempo, e sim, precisa-se de um tempo mínimo para começarmos a livrar-nos do julgo interno, ela convidou a se escrever sobre tal experiência. E depois, a falar (e a mover-se) sobre o que se fez.

Pôxa, que difícil!

Primeiro conseguir mover-se ao vento, ao vazio, e depois escrever sobre, e depois falar sobre. Principalmente quando essa escrita e essa fala “em movimento” também é para ser solta, livre, deixando vir o que viesse na cabeça, sem cabeça, sem pensar muito, sem raciocinar. Dar corpo ao mover-se, ou deixar o corpo ser, dar corpo a escrita, ou deixar a escrita ser corpo, e depois dar corpo a fala, deixando a fala ser corpo. Que maluquice pensei, claro, tentando encontrar explicações plausíveis para o que estava acontecendo. Que maluquice usar também a palavra, a escrita e a fala, justamente essas que são usadas pala dar sentido, para explicar a realidade, usá-las livres de razão, coerência, portanto, livre de ser uma explicação, mesmo sendo ainda uma narração, uma tradução do que acabou-se de ser. Essa possiblidade de poder se livrar do julgo, da razão e da coerência, tornou a escrita, a fala, a construção narrativa, em uma outra via de tradução, capaz de gerar conexões outras. Essa provocação fez com que a incoerência não somente pudesse ser  aceita, como considerada como uma realidade viável e interessante. E se a escrita e a fala que são tão presas aos significados, a função, podem se livrar deste julgo, se perderem, o mover-se então, acaba se atirando no vazio. Um caminho onde a incoerência não é sofrimento e sim uma rica e inicial fonte para se chegar a novos sentidos e também para a falta de sentido ser um.

E esse encontro com Vera Mantero na casAcorpO foi mais especial ainda porque ele em si foi também livre de julgo, de explicações prévias, de significado certeiro, fechado, e isso gerou gratas surpresas. Um grupo heterogêneo de artistas de encontro a ela, em um clima leve e curioso. Todos numa disponibilidade deliciosa que beirava a inconsciência, ou talvez fosse isso mesmo. Devido a correria para fazer existir esse encontro, muitos foram sem saber muito bem o que seria. Outros quem seria. Quanta incoerência. Quanta grata incoerência. Todos então se entregaram cegamente a esse encontro com Vera, que veio com uma generosidade sem nome, sem explicação.

Fotos: Alison Júnior e Lara Moura

Uma das participantes relatou no final que não sabia que seria uma vivência, achou que seria uma conversa, portanto não foi preparada. Bom. Outra participante, também depois que terminou, foi ao meu encontro perguntar, quem é ela mesmo? Goiânia tem (d)isso, ir pelo vento, ao encontro das coisas no acaso, ao encontro do acaso nas coisas. E assim, ao acaso, na casAcorpO, aconteceu o encontro de corpos. Sem nomes, sem julgos, sem coerência e sem sofrimento, só sendo.

Os Serrenos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional

Nos dias atuais penso ser profícuo ir a um espetáculo de dança sem querer ver necessariamente dança, aquela que tradicionalmente estamos acostumados a ver. Podemos assim ampliar nossas possibilidades de dança, dos lugares que ela pode conquistar. Assistir um trabalho artístico realizado por uma pessoa da dança é ver dança em outros parâmetros, é ver como se apropria das coisas e os caminhos percorridos para traduzir e produzir realidades.

Vera Manteiro em Manga de Vento

Este espetáculo de Vera Mantero é um desses, e é de uma poética e sensibilidade surpreendentes. Corporalidade e presença em uma narrativa singular e curiosa, vinda de uma pesquisa provocativa e atenta, para nos apresentar ou presentear historias de pessoas quase esquecidas ou desaparecidas. Nela, as palavras que contam as histórias também viram sons, sons que viram corpo. Conceitos e teóricos ganham corpo, viram cena. Imagens apresentam as histórias e também viram realidade presentificada que a artista então resolve interagir. E por fim, a artista nos apresenta o real, o real que se transformou essas histórias sob os cuidados do seu olhar.

E foi assim que Vera construiu seus exercícios em antropologia ficcional, com muito corpo escuta, corpo relato, corpo sentença, dança.

 

A programação completa da Mostra Manga de Vento e mais informações você pode conferir aqui.

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